Carnaval e a cidade como um projeto compartilhado.

1024 637 Caio Esteves

Fim da folia. O som dos trios elétricos é substituído pelo barulho dos carros, as fantasias dão lugar ao terno e gravata, as ruas voltam a ser o lugar dos automóveis e as calçadas o lugar das pessoas, os muros, bem, os muros voltam a ser só muros. Foram quatro dias de ocupação intensa da cidades, especificamente em São Paulo, o Carnaval de rua parece ter encontrado seu verdadeiro palco, o centro da cidade.

O centro de São Paulo seria a escolha óbvia desde sempre, maior oferta de transporte público, ruas mais largas, mais serviços e menos moradias, do que a Vila Madalena, por exemplo.

É fato que o Carnaval de São Paulo vem numa curva de aprendizado, com a recente retomada dos blocos de rua, e que levará algum tempo até as coisas chegarem a um patamar de qualidade aceitável.

Quem acompanha meus artigos, sabe da minha defesa pelo uso da cidade, pela apropriação dos espaços públicos, pela vida urbana e pela cidade vibrante. O problema passa a existir quando essa vibração, seu uso, é pensado para uma parcela da população, exclusivamente. Explico, diferente da música, há quem não goste de samba, e talvez seja até ruim da cabeça ou doente do pé, mas o fato é que se a cidade é um projeto compartilhado como disse no texto, usando uma citação de Charles Montgomery, ela deve se “preocupar” com todos.

Claro que viver nos centros urbanos tem seu preço, barulho, trânsito, mas tem muito mais vantagens, diante do meu ponto de vista. O caso é que, diferente do que se pensa, pessoas efetivamente moram no centro. A ideia de Centro é algo abrangente demais, existe vários centros dentro do Centro, em muitos deles, fato, não existem moradias, como é o caso do “centro financeiro” do centro, a região da rua Boa Vista, ou o “centro comercial” do centro, a rua 25 de Março. Os blocos passam nesses lugares? claro que não!
No pensamento vigente onde o centro é exclusivamente comercial, eles passam nas ruas onde existem mais moradores, como na região da Praça da República, que envolve a av. São Luis e o Largo do Arouche. Isso é um problema? não deveria.

Passa a ser quando os blocos não tem nenhum tipo de regramento, quando os trios não tocam em alturas absurdas até a madrugada, isso sem falar na falta de infraestrutura de apoio, como os banheiros públicos, ainda longe do ideal.

Como disse trata-se de uma curva de aprendizado. A cidade e os blocos estão aprendendo a se comportar diante desse novo momento. É preciso planejar os próximos passos, pensar nos formatos e tamanhos dos blocos, na capacidade que a cidade comporta. O número de foliões está diretamente relacionado ao volume dos trios, mais gente, mais alto. Pensar em formas de controlar a folia, passa por regrar os volumes. Recentemente o portal UOL, ao avaliar o carnaval de rua de SP, julgou como ponto fraco a dificuldade de se ouvir a música longe do carro de som…em casa conseguimos ouvir alto e claro de três blocos ao mesmo tempo, por volta das 00:30 de quarta-feira…
Sim, a cidade é de todos, e o carnaval é uma manifestação cultural das mais expressivas, e o carnaval de rua é um grande avanço na direção do uso e direito a cidade, mas como tudo, é necessário uma grande dose de bom senso.

Hoje finalmente podemos sair de casa, de carro, pra quem gosta ou precisa, já que ficamos ilhados com todas as ruas fechadas ao redor, e quem sabe poderemos dormir com alguma tranquilidade, alguma, porque os malditos pagodes da Praça Dom José Gaspar continuarão a tocar suas timbas e surdos como se não existisse amanhã, mas pelo menos lá, o hoje acaba por volta das 22:00.

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