Virada Cultural e a cidade para as pessoas, ou, Carta aberta ao novo prefeito.

1024 512 Caio Esteves

Ontem o prefeito eleito de São Paulo, João Dória, comunicou a mudança da Virada Cultural para o Autódromo de Interlagos.

“Vamos deslocar a Virada Cultural para um único local e não vai ser no Centro da cidade. Vamos fazer a Virada Cultural acontecer em Interlagos, 24 horas, com segurança, com transporte, com conforto e sem os transtornos que, infelizmente, pela dimensão que ela assumiu ela proporciona. Ela vai manter tudo de bom que ela sempre teve, sem os aspectos ruins em Interlagos”

Uma das ideias da Virada Cultural no centro da cidade é justamente a possibilidade da descoberta desse lugar, ainda estigmatizado por grande parte dos moradores de São Paulo. Uma oportunidade de reunir diversas pessoas, tribos, culturas, num evento que promove não só a cultura mas também a convivência.

Mas, além disso, a Virada, promove um outro tipo de experiência, a de que o uso do espaço público também é promotor da segurança. Não, isso não é uma ideia inovadora, vinda de algum instituto de pesquisa escandinavo, é algo publicado nos anos 1960, por uma jornalista, isso mesmo, nem urbanista Jane Jacobs era, e nem precisaria. A famosa expressão ” Olhos na rua”, do livro “Morte e vida das grandes cidades” influenciou gerações de urbanistas a pensar o uso do espaço público, entre eles, o hoje comemorado, Jan Gehl.

Esse evento traz “vida” para o centro da cidade. Aliás, os centros das cidades brasileiras vivem um processo urbanístico causado décadas atrás pelo mesmo tipo de pensamento que o prefeito eleito quer implantar. Enquanto no resto do mundo os centros são lugares vibrantes e valorizados, uma vez que reúnem a maior oferta de equipamentos, atividades e transporte, no Brasil, os centros se degradaram, em grande parte devido ao pensamento autocentristas que prega que é preciso estar em lugares de mais fácil acesso por automóvel, ou ainda, pela incapacidade governamental de lidar com problemas como segurança e limpeza.

A mudança do evento para Interlagos, além de perder a “dimensão urbana” da cidade como disse hoje Raul juste Lores na Folha de S.Paulo, traz de volta algo que a própria mudança quer evitar, insegurança, causada pelo abandono e pelo medo estigmatizado.

É claro que a convivência é o motor da transformação. Imaginar uma cidade para pessoas é muito diferente de viver uma cidade para pessoas, imaginar uma cidade vibrante é muito diferente de viver uma cidade vibrante, imaginar uma cidade segura é muito diferente de viver uma cidade segura, imaginar uma convivência plural é muito diferente de viver numa cidade plural.

Infelizmente, se a mudança se concretizar, teremos que nos contentar só em imaginar.

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